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Tupi or not Tupi: a Semana de Arte Moderna 100 anos depois

Publicado em 06/07/2022


O texto a seguir foi apresentado na abertura do evento  em comemoração aos 100 anos da Semana de Arte Moderna,
promovido pelos projetos
O Inconsciente é o Social e República das Letras.
 
Republica das Letras em 2022 é a retomada de um espaço de trabalho da Psicanálise&Cultura, iniciado em 2006. Propõe a leitura dos clássicos literários na esteira do que nos diz Ítalo Calvino: "Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes)”. 

Freud era um ávido leitor e sempre recorria aos grandes autores (e também aos pequenos) como ponte para o acesso ao psiquismo humano. Ele se interessava pelo processo criativo, buscava entender como o poeta/escritor consegue produzir efeitos de afeto no leitor. Em Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen afirma: "Os escritores e seu testemunho são para ser colocados em lugar alto, pois eles costumam saber tantas coisas entre o céu e a terra que nossa sabedoria de escola não poderia nem sonhar.”

Neste ano, a escolha da leitura de Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, se dá em meio às comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna, realizada por um grupo de intelectuais, artistas e escritores no teatro Municipal de São Paulo, no ano de 1922. A data coincide com o bicentenário da Independência (ou morte?) do Brasil.

É também nesse período dos anos 20 que a psicanálise surge no país. Segundo pesquisa feita por Denise Maurano e Marco Antônio Coutinho Jorge, ambos psicanalistas, "Desde os anos 1910 o pensamento freudiano vinha se infiltrando na intelectualidade brasileira e circulando entre os modernistas, fornecendo-lhes os elementos de base para a revolução estético-ideológica que pretendiam”. Oswald de Andrade faz menções a Freud em seu Manifesto Antropófago lançado em 1928, principalmente relacionadas ao texto Totem e tabu, sendo que Mário de Andrade foi considerado o maior leitor de Freud entre seus contemporâneos. Inclusive a expressão "Freud explica”, muito citada na contemporaneidade, surgiu pela primeira vez num romance póstumo do modernista Antônio de Alcântara Machado.

Macunaíma faz referência a Freud no capítulo 8 do livro: Carta pras icamiabas: 

"Estávamos ainda abatidos por termos perdido nossa muiraquitã, em forma de sáurio, quando talvez por algum influxo metapsíquico, ou, quilo sá, provocado por algum libido saudoso, como explica o sábio tudesco, Dr. Sigmund Freud (lede Froide), se nos deparou em sonho um arcanjo maravilhoso. Por ele soubemos que o talismã perdido estava nas diletas mãos do doutor Venceslau Pietro Pietra, súdito do Vice-Reinado do Peru, e de origem francamente florentina, como os Cavalcantis de Pernambuco. E como o doutor demorasse na ilustre cidade anchietana, sem demora partimos pra cá, em busca do velocino roubado.”  

Assim como os surrealistas, cujo movimento no Brasil coincide com o modernismo, a descoberta do inconsciente por Freud, principalmente com relação aos sonhos, foi devidamente valorizada pelos modernistas que buscavam representar as imagens oníricas em suas obras, principalmente na pintura, mas também na literatura.

Freud já chamava atenção em O mal estar na civilização, para o fato de que a vida é dura demais para nós e que para suportá-la não podemos dispensar medidas paliativas, "construções auxiliares” como a arte, bastante eficaz graças ao papel que a fantasia assume na vida psíquica.

Macunaíma causa esse efeito! Olhar o céu e lá encontrar Ci, a Mãe do Mato virada na Beta do Centauro, junto de Macunaíma, a Ursa Maior; saber que aquelas quatro estrelas denominadas Cruzeiro são na verdade um pássaro, o Pai do Mutum, e que o pé do guaraná é o filho morto de Macunaíma renascido, tudo isso nos transporta a um mundo onde só a arte, aqui particularmente, a literatura, pode nos levar. Afinal, como diz Macunaíma:

NÃO VIM NO MUNDO PARA SER PEDRA     

Rosane Morais
Vila Velha, 17 de setembro de 2022



Clique aqui para assistir ao Evento "Tupi or not tupi: a Semana de Arte Moderna 100 anos depois".

Referências
:
ANDRADE, Mário. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. São Paulo: La fonte, 2019
CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos? São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
FREUD, Sigmund. (1907 [1906]) Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1996. 
MAURANO, Denise; JORGE, Marco Antônio Coutinho. TORÇÕES: do modernismo ao barroco – Notas sobre as publicações psicanalíticas no Brasil. Psicanálise & Barroco em Revista, v.9, n.1: 15-34 jul.2011.





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