A gramática (não sem a lógica) do fantasma
Publicado em 10/11/2022
No
dia 8 de março de 2021, um menino de 4 anos chegou morto a um hospital na Zona
Oeste do Rio de Janeiro, com hemorragia e edemas pelo corpo. O caso do menino
Henry Borel tomou o noticiário da época, e ainda repercute hoje, por se tratar
de uma história que apresenta personagens bastante emblemáticas e um enredo
ainda bastante confuso. De acordo com notícia veiculada pelo Portal G1 (O QUE
SE SABE..., 2021, on-line), Dr. Jairinho, o padrasto da criança, foi
acusado pela justiça de ter batido em Henry, o que causou hemorragia interna e
laceração hepática, segundo o laudo da Polícia Civil. A mãe do menino, Monique
Medeiros, antes de levar o filho ao hospital, fez duas trocas de roupas e, no
dia seguinte ao enterro, passou a tarde no salão de beleza de um shopping na
Barra da Tijuca.
Não
pretendo fazer nenhuma reconstituição do crime nem qualquer análise do perfil das
personagens, mas gostaria de destacar alguns traços dessa história para,
pretensiosamente, estabelecer alguma articulação psicanalítica a partir dessa
narrativa que infelizmente é comum na modernidade recente. A partir da minha
experiência na clínica – a minha própria, como analisante, pois ainda estou em
processo de constituição como analista, ou seja, ainda estou no meio da
travessia do fantasma –, resolvi confrontar a minha leitura, em cartel, da Lógica
do Fantasma com o modo como um evento específico foi narrado por um veículo de
imprensa. As reiteradas menções de Lacan – 15, para ser mais exato – ao texto
"Batem numa criança” (FREUD, 1919 [2010]) me fizeram recorrer a essa história
de comoção nacional na tentativa de recolher os traços do inconsciente na
maneira como narrativas dessa natureza são desenhadas na modernidade recente. O
recolhimento desses traços, portanto, nos permite reafirmar, como Lacan, que o
inconsciente é o social e, como também é possível ler no próprio texto da Lógica,
"o inconsciente é a política” (LACAN 1966-67 [2017], p. 348).
O
primeiro ponto que chama atenção nessa história é que "batem numa criança”.
Embora Jairinho tenha negado, a polícia – e a imprensa – foi (foram) em busca
de indícios de que ele possa de fato ter feito isso. Uma vítima do passado,
hoje com 13 anos, relatou que, na época em que sua mãe se relacionava com
Jairinho, sofreu chutes, pisões e até afogamento na piscina. Casos assim chocam
a opinião pública. E, para Lacan (1932 [1987]), chocam a opinião pública porque
são imotivados¹.
Freud (1919 [2010]) chama atenção em seu texto que a fantasia da surra é
cultivada desde os cinco, seis anos de idade e que, mais tarde, a fantasia é
alimentada por livros que abordam tal temática. A confirmação contemporânea
desse fascínio pela surra pode ser exemplificada por dados acerca da audiência
de uma cena de novela que é lembrada até hoje. Trata-se da surra da personagem
Doris (vivida pela atriz Regiane Alves) apanhando do pai (personagem de Marcos
Caruso), na novela "Mulheres Apaixonadas” (produzida em 2003, pela Rede Globo
de Televisão). Em 2020, o capítulo que reprisou essa cena deixou o canal Viva
em primeiro lugar de audiência no horário, considerando o conjunto de canais
pagos, e a hashtag #CoçaDaDorisnoVIVA entrou para os Trending Topics
do Twitter.
Ao
que tudo indica, as fantasias de "coça” de pais em filhos eram uma questão para
os pacientes de Freud e ainda são na atualidade. Lacan (1966-67 [2017]) afirma
"que o fantasma é apenas um arranjo significante” (p. 444) e recupera a
tradução literal da expressão alemã Ein Kind wird geschlagen ("uma
criança é batida”) para dizer justamente que "não é senão num mundo de
linguagem (...) que uma criança é batida tem seu valor pivô” (p. 146,
itálico no original). Esse pivô a que Lacan se refere é o elemento de
significação que constitui um significante que representará um sujeito na
relação com outro significante. E é na linguagem, na estrutura gramatical, que
se dá essa constituição: ora, o sadismo representado pela primeira versão do
fantasma em "meu pai está batendo na criança que eu odeio” faz o reforço egóico
da criança como objeto de amor exclusivo pela figura castigadora. Após uma
simples substituição na ordem dos constituintes e, portanto, na estrutura da
sentença, "eu sou batido por meu pai” mantém o agente castigador, mas traz uma
substituição da figura castigada: o masoquismo se apresenta na narrativa. Por
fim, "batem numa criança” (ou "bate-se numa criança” ou "uma criança é batida”)
compõe o terceiro estágio que, também por uma mudança na ordem dos
constituintes da sentença, resultam numa abstração que coloca sadismo e
masoquismo em articulação significante de modo que a surra de outras crianças afasta
os experienciadores e se torna um arranjo significante (que representa um sujeito
para outro significante).
Como
é possível perceber por essas inversões sintáticas nas sentenças, muda-se o
referente (a criança que apanha), mas não se muda o agente (aquele que dá a
surra). Talvez esteja aí uma das razões pelas quais crimes como o que foi
cometido contra Henry Borel sejam tão chocantes: a terceira fase da fantasia da
criança que apanha é efeito de uma "cicatriz narcísica” que faz a pessoa que lê
ou ouve o relato se colocar simbolicamente em uma posição sadomasoquista diante
do caso. O masoquismo vem do que convencionalmente chamamos de "empatia” (o
colocar-se no lugar do outro, o sofrer junto), e o sadismo vem do afã quase que
incontrolável de se querer consumir cada vez mais detalhes dessa história e
desses personagens, tudo isso protegido por um distanciamento promovido pela
sentença na voz reflexiva: bate-se numa criança, ou seja, há uma criança, que
eu não conheço, apanhando, e ela está apanhando não sei de quem, porque esse
agente não é mais revelado.
Além
de um "pai” na cena do crime (na verdade, padrasto), há também uma mãe. E
quando nos referenciamos à tríade pai-mãe-criança, não há como não remeter ao
Édipo. Chama a atenção o fato de a mãe do menino assassinado há poucos dias ter
passado a tarde no salão de beleza. Confrontemos esse episódio com o
questionamento de Lacan:
Qual oceano de gozo
feminino, pergunto, não é necessário para que o navio de Édipo flutue sem
afundar, até que a peste mostre enfim de qual espírito é feito o mar de sua felicidade?
Esta última frase pode parecer enigmática. É que tem, com efeito, que respeitar
aqui o caráter de enigma que deve guardar propriamente certo saber, que é
aquele que concerne o palmo que marquei aqui pelo furo. (LACAN, 1966-67 [2017],
p. 336)
Por
que essa notícia sobre a mãe no salão de beleza tem destaque na mídia? O quanto
de "dissimulação Jocasta” (op. cit., p. 337) tem nesse enigma? No discurso da
modernidade recente, a historinha de que o filho ama tão incondicionalmente a
mãe – e é correspondido – que está disposto a matar o pai, parece deixar furo.
A cada vez que se revisita o mito de Édipo, a questão saber/não-saber parece
ser muito mais forte do que o incesto e o parricídio e seus desdobramentos.
Monique Medeiros, ao se comunicar com o pai de Henry, Leniel Borel de Almeida,
antes de o filho voltar para casa no domingo à noite, chegou a afirmar que
ficava "totalmente desestabilizada” por não aguentar o choro dele para não ir.
Por mensagem, após a chegada do filho em casa, ela envia uma mensagem ao
ex-marido: "Hoje será uma noite difícil. Sempre que ele chega é assim. Eu parei
a minha vida para estar ao lado dele e não adianta. Eu sei o que passo
diariamente.”
O
tão propalado "sonho da maternidade”, alimentado por um fantasma que leva
muitas mulheres a velar um desejo de não ser mãe acaba criando indivíduos
que "param suas vidas para estar ao lado” do filho (ou da filha). A concepção
romântica e positivista de amor não coaduna com o real da maternidade e produz
furos no saber sobre essa questão. Ao prever que "será uma noite difícil”,
Monique estaria se referindo, não apenas a sua relação com seu filho, mas
também, a partir daquilo que conseguimos saber "só-depois”, à verdade
dessa relação.
Esse
enquadramento da realidade nos dá o tom do discurso da modernidade recente, a
partir das narrativas trazidas pelos veículos de imprensa – a nova fonte dos
mitos contemporâneos, se compararmos aos mitos do século XIX, aos quais Freud
recorria, que tinham sua fonte na literatura clássica. O Édipo clássico,
simbólico, é posto à prova por um Henry nem tão simbólico assim, e isso nos remete
à afirmação de Lacan (1966-67 [2017], p. 15): "é do imaginário da mãe que vai
depender a estrutura subjetiva da criança”.
Sobre essa questão, Flávia Lana Garcia de
Oliveira e Tania Coelho dos Santos (2018, p. 934) ressaltam: "na melhor das
hipóteses, no imaginário materno, a criança pode vir a ser alguma coisa que
preencha a falta constitutiva da realidade humana. Partindo de seu próprio
fantasma de completude, a figura materna acolherá e subjetivará a criança real.”
Nesse sentido, ao não preencher essa falta, uma criança não é mais "apenas”
espancada, mas é também morta.
A reportagem em que me baseei para redigir
este texto dá um panorama do caso da morte de Henry Borel a partir de 13
perguntas, a partir das quais se mostrou que houve um assassinato em
consequência de ações contundentes contra várias partes do corpo do menino de 4
anos, que não teria resistido a essas ações e morreu. A última pergunta, "o que
falta esclarecer?” tem como resposta: "Falta esclarecer como o crime foi
cometido”. Parece estranho, diante de tantas evidências, que não seja possível
fazer uma afirmação mais definitiva a respeito desse caso, mas talvez, movidos
pelo fantasma da surra e de suas consequências, seja mais importante, aos
veículos de imprensa, deixar o que já se sabe encoberto pelo "que ainda não se
sabe”.
Roberto Perobelli Vila Velha, 16 de julho de 2022
Referências: CALAZANS, R.; BASTOS, A. Passagem ao ato e
acting-out: duas respostas subjetivas. Fractal: Revista de
Psicologia, v. 22, n. 2, pp. 245-256. 2010 FREUD, S. Batem numa
criança (1919). In: Obras completas: História
de uma neurose infantil ("O Homem dos Lobos”), além do princípio do prazer e
outros textos [1917-1920]. v. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010,
pp.220-246. LACAN, J. Da psicose
paranóica e sua relação com a personalidade. (1932) Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1987. LACAN,
J. A lógica do fantasma: Seminário
1966-1967. 3. ed. Recife: Centro de
Estudos Freudianos do Recife. 2017. O
QUE SE SABE sobre a morte do menino Henry Borel. G1, Rio de Janeiro. 18 mar.
2021, 10h56. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/03/18/o-que-se-sabe-sobre-a-morte-do-menino-henry-borel-no-rio.ghtml.
Acesso em: 14 jul. 2022, às 22h14. OLIVEIRA, F.L.G.; COELHO DOS SANTOS, T. A
lógica do fantasma na passagem da modernidade à contemporaneidade. Estudos e
Pesquisas em Psicologia. Rio de Janeiro, v. 18, n. 3, pp. 932-952, 2018.
Nota: [1] A noção de
"imotivados” aqui se refere a uma conduta que "revela que a ação humana não
visa o bem-estar e não obedece ao programa do princípio do prazer” (cf.
CALAZANS; BASTOS, 2010)
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