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"Por que você precisa ser homenageada nas redes sociais?" - PARTE 1

Publicado em 07/03/2023


Mais um oito de março está chegando, e Anna está ansiosa: "você bem que podia fazer uma postagem no Instagram me parabenizando e me homenageando por ser uma mulher forte, guerreira, batalhadora, né, Fê?”, pede ela ao marido. "Por que você precisa ser homenageada nas redes sociais? O meu reconhecimento, só eu e você, não basta? Se eu te levar para jantar não resolve? Assim você não vai precisar ir para a cozinha nesse dia...”, retruca ele. Anna discorda. Ela acha que as redes sociais são o termômetro das relações humanas: "se as pessoas não postam o que estão fazendo, o que estão sentindo, é como se elas não existissem, sabe?”. O argumento da esposa assustou um pouco, mas Fernando concordou: "então vamos fazer assim: na manhã do dia 8, eu preparo uma linda bandeja de café da manhã, coloco umas flores e te entrego. A gente faz uma foto bem bonita sua, você se prepara antes – lógico! – e eu posto no meu perfil. Mas a legenda eu vou deixar por sua conta! Eu já pensei na imagem!” A alegria parece ter dado lugar à ansiedade e Anna já começou a pensar no texto. Pensou numa forma de dizer que as mulheres são muito importantes para o mundo, porque são elas que dão à luz, mas também teria que fazer menção às costureiras que morreram queimadas no galpão incendiado pelos patrões – "coitadinhas das costureiras...” – e, para finalizar, uma frase de efeito: "não queremos ser melhores que os homens, só queremos ser respeitadas... somos femininas, e não feministas!”

Anna tinha um analista. Começou há pouco tempo, depois que uma amiga insistiu, disse que, se ela fizesse análise, começaria a repensar muita coisa na vida dela. O analista era bonitão, tinha uma voz parecida com a do pai dela, ela estava adorando... só não gostou muito quando pediu para fazer um Reels no consultório com ele, e ele não concordou: "ele não é muito ligado nessa coisa de rede social, mas aos pouquinhos eu vou convencê-lo de que isso é importante”, justificou ela. No dia em que ela contou que o Fê tinha topado fazer a postagem sobre o Dia Internacional da Mulher, o analista reforçou a pergunta que o marido tinha feito: "Por que você precisa ser homenageada nas redes sociais? O reconhecimento do seu marido, só ele com você, não basta?” (a parte do jantar, o analista não repetiu). Anna, de pronto, respondeu: "óbvio que não! Você não entende, porque nem atualiza seu Instagram... sua foto é de 15 anos atrás... você já tem sua carreira consolidada, não liga para essas coisas, mas hoje em dia, imagem é tudo – ‘quem não é visto não é lembrado’, como dizem – e eu quero ser lembrada, o tempo todo, todos os dias... aliás, dia da mulher é todo dia! Mas eu entendo que precisa de um dia para celebrar, porque teve o lance das costureiras lá em Nova Iorque e tal...”

Nessa hora, o analista disse: "você sabe que essa história do incêndio no galpão de costureiras não é comprovada, né? No início do século 20, havia muitas greves, muitas mulheres (assim como os homens) faziam manifestações por conta das más condições de trabalho, teve um galpão que até pegou fogo mesmo, por conta das instalações elétricas malfeitas, e não há relatos de patrões trancando as mulheres para que não escapassem. Essas histórias de mártires são típicas do discurso capitalista...” E Anna: "ai, você fala demais! Me deixa falar! Eu vim aqui para eu falar e você me ouvir...” O analista então, pergunta: "ok, então me responde uma coisa: por que você quer ser lembrada, o tempo todo, todos os dias?”

(CONTINUA)





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